segunda-feira, janeiro 26, 2026

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O analfabetismo político do empresário brasileiro.

 



Sou um pequeno empreendedor que está criando uma startup de varejo no mercado fortalezense. Por se tratar da minha primeira empreitada como pessoa de negócios, venho refletindo bastante sobre o que essa mudança representa na minha vida, especialmente considerando todo o meu histórico pessoal e político.

Sou filho de uma funcionária pública estatutária e de um comerciante autônomo da área de engenharia civil, ambos hoje aposentados. Desde criança, também por ser afrodescendente, pardo — apesar de ter pele clara e olhos claros — sempre tive uma inclinação mais à esquerda. Fui rebelde na adolescência: fumei maconha, cigarro, gostava de beber e de escutar rock progressista e contestatório, de bandas como Nirvana, Soundgarden, Rage Against the Machine, Pearl Jam, Sepultura, Mudhoney, Alice in chains, Silverchair, Megadeth, além de Chico Science & Nação Zumbi, Titãs, entre tantas outras absolutamente críticas ao status quo da sociedade.

Toda essa trajetória moldou profundamente o meu caráter e a minha forma de ver o mundo, algo bastante coerente para quem nasceu e vive no Nordeste brasileiro. A ideia de entrar no mundo dos negócios existe desde 2018, mas, por questões orçamentárias, o projeto foi sendo adiado até que finalmente consegui concluir o plano de negócios e colocar as ideias em prática.


Há muito tempo reflito sobre a mentalidade do empresário brasileiro, não apenas da minha região, mas do país como um todo. Tenho a impressão de que grande parte dessas pessoas adere quase automaticamente ao ideário neoliberal como uma espécie de “salvador da pátria”, sustentando o mito do empreendedor individual como responsável exclusivo pelo avanço nacional. Não que empreender não seja importante — é —, mas essa visão limitada e empobrecida faz com que muitos não enxerguem o quão perigoso é eleger políticos e parlamentares comprometidos apenas com os interesses de uma minoria, enquanto a maioria da população segue excluída.

É extremamente comum ver empresários apoiando políticos de viés liberal na economia, mesmo quando esses não apresentam qualquer projeto realista de país que enfrente os problemas estruturais do Brasil. O discurso da direita brasileira atual é raso e anacrônico, baseado em fórmulas da época de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, resumidas quase sempre a cortar impostos e privatizar tudo. Décadas se passaram, a China se desenvolveu, os Estados Unidos mostram sinais claros de declínio relativo, mas o pensamento da direita brasileira simplesmente parou no tempo.

Quais são, afinal, as soluções apresentadas por essa direita para o grave processo de desindustrialização brasileira? Qual é a resposta concreta para a crise climática provocada pelo aquecimento global? Que propostas existem para enfrentar os problemas estruturais do Norte e do Nordeste? E para o desmatamento e o garimpo ilegal na Amazônia? Onde estão as discussões sobre industrialização verde? Onde estão as soluções para os gargalos históricos da saúde e da educação públicas?

Enquanto o discurso se limita à redução do Estado e à privatização, o crescimento econômico brasileiro permanece estagnado há cerca de 40 anos, desde a adoção de políticas neoliberais no período pós-Fernando Collor. Não se trata apenas de afirmar que a forma de pensar de parte do empresariado é mesquinha ou tacanha, mas de apontar sua incapacidade de compreender, com profundidade, os verdadeiros problemas nacionais.

O mesmo empresário que clama por menos impostos raramente reflete sobre como o Estado poderá melhorar a saúde pública, a educação, a segurança, a infraestrutura ou os investimentos estratégicos em defesa. Depois, são esses mesmos que reclamam do aumento da violência, dos buracos nas ruas, da falta de iluminação pública, da sujeira urbana e da presença crescente de facções criminosas. A contradição é evidente: deseja-se menos Estado, mas cobra-se dele soluções coletivas.

Além disso, a estrutura produtiva brasileira vem se deteriorando desde a década de 1980, em grande parte devido a uma abertura comercial irresponsável que impactou duramente a indústria nacional. Ao nos desindustrializarmos, tornamo-nos reféns das oscilações cambiais, da dolarização da economia e da dependência externa, obrigados a exportar cada vez mais commodities para importar produtos de maior complexidade tecnológica. A desindustrialização não é abstração acadêmica, ela destrói empregos, salários, capacidade de inovação, empreendedorismo tecnológico.

A baixa complexidade da atividade econômica brasileira afeta diretamente o empreendedorismo, já que empreender sempre esteve historicamente ligado à inovação tecnológica. Em vez de culpar exclusivamente o Estado, o empresariado deveria cobrar dele uma política industrial consistente capaz de reverter esse processo. Um país com uma economia mais sofisticada e diversificada garante salários mais altos, maior estabilidade e menor desigualdade social.

Outra mentalidade recorrente é a demonização dos impostos, tratados como um mero artifício ideológico, e não como uma ferramenta administrativa essencial para corrigir desequilíbrios econômicos. Impostos podem ser utilizados para proteger a indústria nacional, pagar a dívida pública, financiar saúde, educação, infraestrutura e defesa. Encarar tributos apenas como um mal absoluto é mais uma ladainha recorrente de parte do empresariado brasileiro.

O empreendedor e o empresário precisam compreender que não existe desenvolvimento nacional sem um Estado forte, política industrial e diversificação econômica. Estados Unidos, China e países europeus jamais teriam se tornado potências globais sem protecionismo estratégico, investimento em pesquisa e desenvolvimento e atuação ativa do Estado como indutor do crescimento.

Um comentário:

  1. Excellent point of view and regardless of political personal bends amazing work as a writer !! Please do not stop.

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