Sou um pequeno empreendedor que está criando uma startup de varejo no mercado fortalezense. Por se tratar da minha primeira empreitada como pessoa de negócios, venho refletindo bastante sobre o que essa mudança representa na minha vida, especialmente considerando todo o meu histórico pessoal e político.
Sou filho de uma funcionária pública estatutária e de um comerciante autônomo da área de engenharia civil, ambos hoje aposentados. Desde criança, também por ser afrodescendente, pardo — apesar de ter pele clara e olhos claros — sempre tive uma inclinação mais à esquerda. Fui rebelde na adolescência: fumei maconha, cigarro, gostava de beber e de escutar rock progressista e contestatório, de bandas como Nirvana, Soundgarden, Rage Against the Machine, Pearl Jam, Sepultura, Mudhoney, Alice in chains, Silverchair, Megadeth, além de Chico Science & Nação Zumbi, Titãs, entre tantas outras absolutamente críticas ao status quo da sociedade.
Toda essa trajetória moldou profundamente o meu caráter e a minha forma de ver o mundo, algo bastante coerente para quem nasceu e vive no Nordeste brasileiro. A ideia de entrar no mundo dos negócios existe desde 2018, mas, por questões orçamentárias, o projeto foi sendo adiado até que finalmente consegui concluir o plano de negócios e colocar as ideias em prática.
Há muito tempo reflito sobre a mentalidade do empresário brasileiro, não apenas da minha região, mas do país como um todo. Tenho a impressão de que grande parte dessas pessoas adere quase automaticamente ao ideário neoliberal como uma espécie de “salvador da pátria”, sustentando o mito do empreendedor individual como responsável exclusivo pelo avanço nacional. Não que empreender não seja importante — é —, mas essa visão limitada e empobrecida faz com que muitos não enxerguem o quão perigoso é eleger políticos e parlamentares comprometidos apenas com os interesses de uma minoria, enquanto a maioria da população segue excluída.
É extremamente comum ver empresários apoiando políticos de viés liberal na economia, mesmo quando esses não apresentam qualquer projeto realista de país que enfrente os problemas estruturais do Brasil. O discurso da direita brasileira atual é raso e anacrônico, baseado em fórmulas da época de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, resumidas quase sempre a cortar impostos e privatizar tudo. Décadas se passaram, a China se desenvolveu, os Estados Unidos mostram sinais claros de declínio relativo, mas o pensamento da direita brasileira simplesmente parou no tempo.
Quais são, afinal, as soluções apresentadas por essa direita para o grave processo de desindustrialização brasileira? Qual é a resposta concreta para a crise climática provocada pelo aquecimento global? Que propostas existem para enfrentar os problemas estruturais do Norte e do Nordeste? E para o desmatamento e o garimpo ilegal na Amazônia? Onde estão as discussões sobre industrialização verde? Onde estão as soluções para os gargalos históricos da saúde e da educação públicas?
Enquanto o discurso se limita à redução do Estado e à privatização, o crescimento econômico brasileiro permanece estagnado há cerca de 40 anos, desde a adoção de políticas neoliberais no período pós-Fernando Collor. Não se trata apenas de afirmar que a forma de pensar de parte do empresariado é mesquinha ou tacanha, mas de apontar sua incapacidade de compreender, com profundidade, os verdadeiros problemas nacionais.
O mesmo empresário que clama por menos impostos raramente reflete sobre como o Estado poderá melhorar a saúde pública, a educação, a segurança, a infraestrutura ou os investimentos estratégicos em defesa. Depois, são esses mesmos que reclamam do aumento da violência, dos buracos nas ruas, da falta de iluminação pública, da sujeira urbana e da presença crescente de facções criminosas. A contradição é evidente: deseja-se menos Estado, mas cobra-se dele soluções coletivas.
Além disso, a estrutura produtiva brasileira vem se deteriorando desde a década de 1980, em grande parte devido a uma abertura comercial irresponsável que impactou duramente a indústria nacional. Ao nos desindustrializarmos, tornamo-nos reféns das oscilações cambiais, da dolarização da economia e da dependência externa, obrigados a exportar cada vez mais commodities para importar produtos de maior complexidade tecnológica. A desindustrialização não é abstração acadêmica, ela destrói empregos, salários, capacidade de inovação, empreendedorismo tecnológico.
A baixa complexidade da atividade econômica brasileira afeta diretamente o empreendedorismo, já que empreender sempre esteve historicamente ligado à inovação tecnológica. Em vez de culpar exclusivamente o Estado, o empresariado deveria cobrar dele uma política industrial consistente capaz de reverter esse processo. Um país com uma economia mais sofisticada e diversificada garante salários mais altos, maior estabilidade e menor desigualdade social.
Outra mentalidade recorrente é a demonização dos impostos, tratados como um mero artifício ideológico, e não como uma ferramenta administrativa essencial para corrigir desequilíbrios econômicos. Impostos podem ser utilizados para proteger a indústria nacional, pagar a dívida pública, financiar saúde, educação, infraestrutura e defesa. Encarar tributos apenas como um mal absoluto é mais uma ladainha recorrente de parte do empresariado brasileiro.
O empreendedor e o empresário precisam compreender que não existe desenvolvimento nacional sem um Estado forte, política industrial e diversificação econômica. Estados Unidos, China e países europeus jamais teriam se tornado potências globais sem protecionismo estratégico, investimento em pesquisa e desenvolvimento e atuação ativa do Estado como indutor do crescimento.

Excellent point of view and regardless of political personal bends amazing work as a writer !! Please do not stop.
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