domingo, janeiro 18, 2026

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Ascensão individual e negação do coletivo: a incoerência como ideologia


 

Ascensão individual e negação do coletivo: a incoerência como ideologia

Há um fenômeno recorrente no debate político contemporâneo que merece análise rigorosa e crítica explícita: o do indivíduo que ascende socialmente por meio de políticas públicas e, uma vez consolidado em posição confortável, passa a defender o desmonte das mesmas estruturas que viabilizaram sua trajetória. Não se trata de um caso isolado, nem de simples “mudança de opinião”, mas de um padrão ideológico profundamente ligado à lógica neoliberal e ao individualismo meritocrático.

Esse tipo de sujeito costuma apresentar um percurso bastante conhecido. Oriundo, muitas vezes, de camadas médias ou populares, frequentou universidade pública, beneficiou-se de bolsas financiadas pelo Estado e usufruiu de políticas de expansão do acesso ao ensino superior. Em determinado momento de sua formação — frequentemente na juventude — aderiu a discursos progressistas, defendendo a liberdade feminina, o combate ao machismo, a autonomia sexual e o direito das mulheres a uma vida livre de constrangimentos. Em não poucos casos, pertence hoje a minorias sexuais, como pessoas bissexuais ou LGBT.

O paradoxo emerge quando esse mesmo indivíduo passa a se alinhar, de forma explícita, a projetos políticos conservadores e neoliberais, apoiando figuras públicas que defendem o Estado mínimo, atacam políticas redistributivas e mantêm, no mínimo, uma relação hostil ou oportunista com pautas feministas e LGBT. A adesão a esse campo político costuma ser justificada por um discurso tecnocrático sobre “eficiência”, “responsabilidade fiscal” ou “liberdade individual”, como se tais conceitos existissem fora de contextos históricos e relações de poder.

Essa postura revela um processo clássico de reinterpretação ideológica da própria trajetória. O investimento público, antes reconhecido como direito, passa a ser narrado como detalhe secundário ou até como obstáculo superado pelo esforço pessoal. A política pública desaparece da equação; o mérito individual é absolutizado. Trata-se de uma operação simbólica central do neoliberalismo: transformar conquistas coletivas em narrativas individuais de sucesso.

Do ponto de vista sociológico, estamos diante de uma forma evidente de amnésia de classe. Ao ascender socialmente, o indivíduo passa a negar as condições estruturais que permitiram sua mobilidade, adotando a crença de que sua experiência pessoal é prova empírica suficiente para invalidar diagnósticos sobre desigualdade social. A exceção vira argumento contra a regra; o caso individual passa a ser tratado como modelo universal.

Essa lógica não é apenas intelectualmente frágil — ela é politicamente danosa. Ao negar a legitimidade das políticas públicas que possibilitaram sua própria ascensão, esse sujeito contribui ativamente para a normalização do desmonte do Estado social. Universidades públicas passam a ser vistas como “gastos excessivos”; bolsas de estudo, como “privilégios”; políticas de inclusão, como “interferência indevida”. O resultado concreto é o fechamento das portas que ele próprio atravessou.

A contradição se torna ainda mais grave quando o indivíduo pertence a grupos historicamente vulnerabilizados. Pessoas LGBT que apoiam projetos políticos que relativizam direitos civis, enfraquecem políticas de proteção ou flertam com discursos moralistas não estão fazendo uma escolha neutra ou meramente pragmática. Estão colaborando com um ambiente político que legitima sua própria precarização institucional, ainda que isso não se manifeste de forma imediata em suas vidas pessoais.

Frequentemente, essa postura é acompanhada por uma dissociação artificial entre economia e costumes. Afirma-se apoiar determinados políticos “apenas pela economia”, como se as políticas econômicas não tivessem impactos diretos sobre corpos, identidades e condições materiais de existência. Trata-se de uma separação analiticamente insustentável, mas ideologicamente conveniente, pois permite ao sujeito preservar uma autoimagem liberal enquanto legitima projetos excludentes.

É importante destacar que essa crítica não se funda em moralismo individual, mas em análise estrutural. Não se trata de exigir gratidão pessoal ao Estado, e sim de apontar a incoerência política de quem nega a importância de mecanismos coletivos depois de ter sido amplamente beneficiado por eles. Defender o desmonte do Estado social após usufruir de seus benefícios não é sinal de autonomia intelectual, mas de alinhamento acrítico a uma ideologia que privilegia poucos e exclui muitos.

Esse tipo de mentalidade funciona, na prática, como um mecanismo de reprodução das desigualdades. Ao legitimar o discurso de que “quem quer consegue”, ignora-se deliberadamente o papel das estruturas econômicas, do capital cultural e das políticas públicas. O sucesso individual passa a operar como justificativa moral para a exclusão alheia, reforçando a ideia de que os que ficaram para trás são responsáveis por sua própria condição.

No limite, estamos diante de um sujeito que se coloca como agente ativo da regressão social. Não apenas abandona pautas coletivas, mas passa a combatê-las, frequentemente adotando um discurso de superioridade moral travestido de racionalidade econômica. É o indivíduo que sobe pela escada pública e, ao chegar ao topo, defende que ela seja retirada.

Reconhecer o papel do investimento público e das lutas coletivas na própria trajetória não diminui o mérito individual; ao contrário, demonstra maturidade política e consciência histórica. Negar esse papel, por sua vez, não é sinal de independência ou lucidez, mas de uma adesão ideológica que transforma exceções em regra e privilégios consolidados em parâmetro universal.

Criticar essa postura é não apenas legítimo, mas necessário. Em sociedades profundamente desiguais, a naturalização desse tipo de incoerência não é neutra: ela custa oportunidades, direitos e vidas. E toda vez que a ascensão individual é usada como argumento contra o coletivo, o que se fortalece não é a liberdade, mas a exclusão.

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