sexta-feira, abril 03, 2026

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O Brasil e o mito do neoliberalismo salvador: uma análise da desindustrialização e da perda de soberania econômica

 

O Brasil e o mito do neoliberalismo salvador: uma análise da desindustrialização e da perda de soberania econômica

A trajetória econômica brasileira desde a redemocratização revela um paradoxo difícil de ignorar: enquanto as grandes potências reforçam seus Estados e protegem suas indústrias estratégicas, o Brasil optou, especialmente a partir dos anos 1990, por um modelo de abertura econômica acelerada e redução do papel do Estado. Esse movimento, iniciado no governo de Fernando Collor de Mello e aprofundado na era de Fernando Henrique Cardoso, é frequentemente apontado como um dos marcos do processo de desindustrialização precoce do país — um fenômeno cujos efeitos ainda são sentidos décadas depois.

Historicamente, o Brasil havia construído uma base industrial robusta entre 1930 e 1980, com forte atuação estatal e políticas de substituição de importações. Nesse período, a indústria chegou a representar cerca de 50% do PIB nacional. No entanto, esse cenário mudou drasticamente: em 2020, a participação industrial havia caído para aproximadamente 20% do PIB, com a indústria de transformação representando apenas cerca de 14% — bem abaixo de países como China (34%) e Coreia do Sul (28%) . Além disso, o emprego industrial caiu de 27% do total formal em 1986 para cerca de 15% em 2019, evidenciando uma perda significativa de empregos de maior qualidade .

Esse processo não pode ser dissociado da forma como a abertura econômica foi conduzida. A liberalização comercial dos anos 1990 expôs a indústria nacional a uma concorrência internacional para a qual ela não estava preparada, sem que houvesse, em paralelo, uma política industrial consistente para aumentar sua competitividade. O resultado foi um enfraquecimento estrutural do setor produtivo. Dados recentes mostram que, embora a indústria brasileira tenha crescido cerca de 3,1% em 2024, ela ainda se encontra 14,4% abaixo do pico histórico registrado em 2011 . Ou seja, mesmo em momentos de recuperação, o setor não consegue retomar sua força passada.

Enquanto isso, o cenário internacional caminha na direção oposta ao receituário neoliberal clássico. Países desenvolvidos utilizam ativamente o Estado para proteger suas economias e impulsionar setores estratégicos. Os Estados Unidos, inclusive durante o governo de Donald Trump, adotaram políticas explícitas de reindustrialização e proteção comercial, buscando recuperar empregos industriais perdidos. A China, por sua vez, mantém um modelo fortemente estatal e orientado para o desenvolvimento tecnológico, com crescimento industrial consistente — sua manufatura avançou cerca de 6,6% em termos anuais recentes .

O contraste com o Brasil é evidente. Enquanto a indústria global crescia cerca de 0,7% em um trimestre recente, o Brasil registrava apenas 0,2% no mesmo período, caindo para posições inferiores em rankings internacionais de desempenho industrial . Esse desempenho fraco reflete não apenas questões conjunturais, mas uma fragilidade estrutural decorrente de décadas de ausência de planejamento industrial consistente. Paralelamente, o país passou a depender cada vez mais de setores primários: o agronegócio, por exemplo, chegou a representar mais de 26% do PIB em anos recentes, reforçando uma tendência de reprimarização da economia .

Outro aspecto crucial é o impacto regional e social da desindustrialização. Estudos indicam que esse processo foi particularmente intenso em regiões metropolitanas e centros industriais, contribuindo para a estagnação econômica e a perda de dinamismo desses polos . A indústria, historicamente responsável por difundir tecnologia, gerar empregos qualificados e impulsionar cadeias produtivas complexas, foi substituída por atividades de menor valor agregado, limitando o potencial de crescimento de longo prazo do país.

Diante desse cenário, torna-se evidente que o debate econômico brasileiro precisa superar simplificações ideológicas. A experiência internacional mostra que desenvolvimento não é resultado da simples redução do Estado, mas da sua atuação estratégica em parceria com o setor privado. O Brasil, ao adotar parcialmente políticas liberalizantes sem resolver seus gargalos estruturais e sem construir uma estratégia nacional de desenvolvimento, acabou ficando em uma posição intermediária: nem plenamente competitivo globalmente, nem capaz de sustentar sua própria base industrial.

Em última análise, o desafio brasileiro não é escolher entre Estado ou mercado, mas compreender que soberania econômica, geração de empregos de qualidade e desenvolvimento tecnológico exigem planejamento, investimento e visão de longo prazo. Ignorar isso em nome de fórmulas simplistas significa perpetuar um modelo que já demonstrou suas limitações — e comprometer o futuro econômico do país.

Um dos argumentos frequentemente utilizados para defender as reformas liberalizantes dos anos 1990 é que, embora a indústria tenha perdido espaço, o setor de serviços teria se expandido e compensado essa perda. De fato, os serviços hoje representam cerca de 70% do PIB brasileiro. No entanto, essa transformação esconde um problema estrutural mais profundo: nem todo serviço gera desenvolvimento econômico de alta qualidade.

Nos países desenvolvidos, o crescimento do setor de serviços está fortemente associado a atividades intensivas em conhecimento, tecnologia e inovação — como software, finanças avançadas, biotecnologia e serviços empresariais sofisticados. Nos Estados Unidos, por exemplo, empresas de tecnologia e serviços digitais lideram a produtividade e a geração de valor. Já na China, mesmo o setor de serviços está profundamente integrado a uma base industrial e tecnológica robusta, criando um ciclo virtuoso de inovação.

No Brasil, porém, a expansão dos serviços ocorreu de forma distinta. Grande parte desse crescimento se concentrou em atividades de baixa produtividade e baixa complexidade tecnológica, como comércio, serviços pessoais e segmentos informais. Segundo dados de produtividade, o setor de serviços brasileiro apresenta desempenho significativamente inferior ao de economias avançadas, e mesmo dentro do país há grande heterogeneidade entre poucos nichos modernos e uma ampla base de baixa sofisticação.

Esse fenômeno está diretamente relacionado à perda de complexidade econômica. O Brasil caiu posições em rankings internacionais de complexidade produtiva ao longo das últimas décadas, refletindo uma estrutura exportadora cada vez mais concentrada em produtos primários e de baixo valor agregado. Em termos práticos, isso significa que o país produz e exporta menos bens tecnologicamente sofisticados — e, consequentemente, depende mais da importação de tecnologia, máquinas e insumos estratégicos.

As implicações disso para o empreendedorismo são profundas. Em um ambiente com baixa densidade tecnológica e cadeias produtivas pouco complexas, surgem menos oportunidades para inovação disruptiva. O empreendedor brasileiro, em muitos casos, atua em mercados saturados e de baixa margem, com pouco acesso a tecnologia de ponta e menor capacidade de escalar globalmente. Diferentemente de ecossistemas como o Vale do Silício ou polos asiáticos, onde há forte integração entre indústria, pesquisa e capital, o Brasil oferece um ambiente fragmentado e menos propício à inovação de alto impacto.

Além disso, a dependência tecnológica externa se torna mais evidente. Equipamentos avançados, semicondutores, softwares estratégicos e até soluções industriais complexas são majoritariamente importados. Isso limita não apenas o crescimento econômico, mas também a autonomia do país em setores críticos. Em um mundo cada vez mais marcado por disputas tecnológicas e geopolíticas, essa dependência representa uma vulnerabilidade significativa.

Portanto, a substituição de uma base industrial por um setor de serviços predominantemente pouco sofisticado não pode ser vista como um avanço estrutural. Pelo contrário, trata-se de uma mudança que, embora tenha ampliado o tamanho da economia em termos agregados, reduziu sua capacidade de inovar, competir globalmente e gerar empregos de alta qualidade. O desafio brasileiro, nesse sentido, não é apenas crescer — mas voltar a crescer com complexidade, tecnologia e soberania econômica.

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